Eis a série Family Guy a promover o Windows 7... É assim que se fazem fortunas hoje em dia - a irreverência passou a ser uma conformista e eficaz arma comercial.
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Os irónicos benefícios do stresse
As pessoas stressadas são as mais felizes. Atenção, que me estou a referir ao significado que normalmente damos à palavra e não ao seu estrito sentido médico-científico. Quando dizemos que “aquele tipo é um stressado” não estamos a pensar em alguém que, sujeito a condições extremas e antagónicas, entra num processo de exaustão que o pode levar à morte.
Aliás, creio que ninguém admite mortes por stresse. Preferimos culpar o coração, o tabaco, a vida sedentária, a má alimentação ou outra coisa qualquer. Morrer por stresse é algo que nos parece antinatural, é uma morte só admissível para os fracos de espírito. Morrer por stresse culpa o morto, é uma espécie de suicídio...
E por que é que temos tantas reservas em admitir mortes por stresse? Por que pensamos, no nosso íntimo, que as pessoas stressadas são, de facto, mais felizes.
Esses queridos tontos apoplécticos, que se enervam, que estão num permanente estado de exaltação, que se excitam com o trabalho, que parecem permanentemente apaixonados pela vida, que lutam por objectivos como se a vida do planeta dependesse deles, esses queridos tontos, repito, que estão numa correria incessante, são mais felizes que os outros, não tenham dúvidas.
Eles não param para perguntar se alguma coisa à sua volta não faz sentido. Eles não param para ver se alguém ao seu lado precisa de uma mãozinha. Eles não param para se verem ao espelho, à procura de rugas. Eles não param, logo existem. E quando param, desligam, totalmente, e pronto, continuam felizes. O stresse é uma bênção de ignorância.
in 24horas, 14 de Maio de 2005
O enorme problema de ser gigante
O Jorge, aos 16 anos, media 1 metro e 96 e era um óptimo desportista. Jogava basquete e, por influência do pai que foi um campeão no Sporting, ténis de mesa. Ninguém gozava muito com a altura do Jorge, porque se lhe passava pela cabeça aviar duas bolachas na cara de alguém, com as suas enormes mas ligeiras manápulas, o caso dava direito a ida ao hospital. Mas o Jorge era uma jóia de tipo e nunca me lembro de o ver usar o corpo para ameaçar alguém. Ficámos tão amigos que um dia, apesar da minha notória falta de aptidão, ele convenceu-me a ir com ele para o basquete, no Clube Nacional de Natação, onde fiz uma carreira vergonhosa e anedótica.
Certa noite, após um treino que correra mal e nos valera um valente puxão de orelhas do treinador, íamos os dois irritadíssimos por um estreito passeio de uma viela do bairro da Ajuda. Vagarosamente, entre insultos ao homem que nos humilhara frente ao resto da equipa e a admissão das azelhices que tínhamos feito, discutíamos algo grave e sério: valia ou não valia a pena continuarmos no basquete?
Uma velhota vestida de negro, cabelo branco, carrapito, um respeitável bigode e metro e meio de altura seguia atrás de nós e tentava, de vez em quando, ultrapassar-nos: “Com licença! Com licença!”, apelava, repetidamente. O Jorge, distraído lá nas alturas, vira-se, de repente, para trás e atira: “Ó minha senhora, passe por cima!”. Ela, frágil e com o olhar ao nível do joelho dele, levanta o narizito, devagar, até encostar completamente a nuca às costas. Fixa-o e pergunta: “Como!?”. O Jorge cora, pára de caminhar, afasta-se e deixa-a passar. “Sabes”, disse, pouco depois, para mim, “o melhor é continuar no basquete, que lá ao menos não tenho vertigens a falar com pessoas”.
in 24horas, 7 de Maio de 2005
O barbeiro e as orelhas a arder
Como se pode ver na fotografia ao lado, cortar o cabelo não é um dos meus passatempos favoritos. Mas como ele não pára mesmo de crescer, lá acabo por ir ao barbeiro, não vá um polícia suspeitar do meu ar indigente e levar-me preso por vadiagem.
Certamente o caro leitor já reparou que eu sou dos antigos e escrevo “barbeiro”. Sim, acho essa moda dos “cabeleireiros de homens” uma tendência efeminada. E os “unissexo” apavoram-me. Para mim cortar o cabelo significa entrar num salão verde com cadeiras rijas, tesouras cantantes, navalhas assassinas, pincéis grossos amarelados, caras cheias de espuma, after shave Pitralon, fumo de tabaco, ventoinhas no tecto, cabelos mortos no chão, esquentadores que não funcionam, lavatórios rachados, uma dezena de homens a conversar sobre bola e uma falsa loura de meia idade a limar as unhas dos vaidosos endinheirados.
Tudo isto já não há, mas é assim que na minha cabeça tudo continua a ser: não consigo ultrapassar o imaginário que me ficou, de miúdo, quando o meu pai me levava a cortar o cabelo “à Nova Iorque”, fosse lá o que ele queria dizer com isso. Sei que me sentavam, atavam-me com força uma toalha enorme em volta do pescoço e proibiam-me de mexer a cabeça ou, então, estraçalhavam-me as orelhas.
Portanto, hoje, apesar de os estofos serem de cabedal, de o ambiente estar climatizado, de o champô chamar-se Pantene e de as louras terem 20 anos, continuo a ir ao barbeiro “cortar o cabelo à Nova Iorque”, cheio de medo que me firam as orelhas. Lá fico, quietito durante meia hora, à espera que o suplício acabe. Pago e durante todo o dia passo a mão pela cabeça a tentar encobrir o crime cometido pelas tesouras e navalhas endiabradas do carrasco do coiffeur. Conclusão: é para mim totalmente irrealizável fazer do meu barbeiro um confidente ou veículo da minha coscuvilhice – como seria isso possível quando são as minhas orelhas que correm o risco de ficar a arder?
in 24horas, 7 de Janeiro de 2006
Quem quer ensinar-me?
Este anuncio, numa página de classificados de um jornal ribatejano, enterneceu-me.
A maioria de nós deseja, mesmo, aprender, não ficar de fora.
in "O Mirante", 22 de Outubro de 2009
A vida dos meninos ricos
A particularidade mais relevante da vida de um adolescente rico não faz parte dos pequenos luxos que se somam no dia-a-dia de filho de milionário: não é a mota aos 16 anos, não são as viagens a Londres ou Paris em low-cost (a mesada, apesar de tudo, não dá para mais...), nem são as festas nos montes alentejanos da família. A particularidade mais relevante da história que contamos no 24horas de hoje é a de constatarmos este facto: Está generalizada a prática de que todos estes meninos e meninas, depois de terminarem a escola secundária, devem ir tirar o seu curso universitário no estrangeiro, de preferência nos Estados Unidos da América. É aqui que a chamada “classe alta” marca as distâncias, mantém a sua posição de elite e garante a própria sobrevivência da espécie. Há 50 anos a classe média tirava o 5.º ano dos liceus, a burguesia mais endinheirada o 7.º ano e as universidades eram exclusivas das elites. Agora, a classe média tira uma licenciatura, a burguesia mais endinheirada avança para um mestrado e as “boas famílias” subsidiam um diploma estrangeiro para os seus jovens. O dinheiro, como já se sabe, mantém sempre as distâncias.
In 24horas, 12 de Julho de 2009
Ronaldo e Ferreira Leite
Lendo o relato da história de capa de hoje do 24horas, que dá conta que Cristiano Ronaldo perdeu a cabeça e deu um pontapé no vidro de um carro onde estava um casal que o perseguia há horas, para filmar, é instintivo para qualquer leitor tentar o julgamento moral. Vou fazer esse exercício: Cristiano devia ter dado o pontapé no carro do paparazzo? Acho que não. E se eu estivesse no lugar de Cristiano Ronaldo, era capaz de fazer o mesmo? Pois, por muito que isto escandalize o meus colegas de profissão, tenho de reconhecer que sim. Se fosse juiz deste caso, estava tramado...
Falando de outra coisa: Aquilo que Henrique Granadeiro disse ontem ao jornal “I” sobre os tempos em que foi administrador do grupo controlado pela PT, na altura dono do 24horas, é pura verdade. Nesse tempo, era o governo do PSD, ele foi demitido por não ceder à pressão política que queria “cortar cabeças” a jornalistas como eu. Vivi esse facto. Manuela Ferreira Leite não liderava, nessa altura, o PSD mas fez parte desses governos até 2004. Acho relevante o que, sobre isso, ela diz. Leia-se, por isso, a pequena e fundamental notícia da página 7 .
1n 24horas, 1 de Julho de 2009
Rita e Angélico
A relação amorosa entre Rita Pereira e Angélico Vieira deve ser a primeira em Portugal que nasce, vive e morre exclusivamente através do mundo da comunicação social. Os dois, ainda adolescentes, iniciaram carreira na série “Morangos com Açúcar”, de que eram actores principais. Apaixonaram-se, com milhões de telespectadores a ver, numa mistura inédita entre novela e vida real. Os interesses da vida privada com os da vida artística dos dois jovens misturaram- se. Quanto mais tempo passou, mais complicado tudo ficou: pouco tempo depois, estes dois miúdos tiveram de lidar também com os interesses comerciais de produtores, agentes, estações de televisão, imprensa e, até, editoras de música. O namoro deles passou ao estatuto de produto de marketing. Estava, portanto, condenado, pois não há produto de marketing que dure muito. E o amor que tantas vezes viveu nas notícias foi também morto pelas notícias. Agora, Rita tenta preservar, pelo menos, uma amizade com Angélico, com quem viveu cinco anos. Mais uma vez, através da comunicação social... Estes agora adultos, que a TV e os jornais fabricaram, podem ser pessoas sãs?... Tenho medo da resposta.
in 24horas de 24 de Junho de 2009
Caras vistas com outro olho
Tenho cá uma desconfiança de que a morfopsicologia é tão rigorosa do ponto de vista científico quanto a frenologia o foi no século XIX, quando popularizou falsamente uma teoria que reivindicava ser possível determinar o carácter, as características da personalidade e até o grau de probabilidade de uma pessoa cometer um crime pela forma da cabeça, “lendo” as protuberâncias do crânio. Mas como não sou cientista nem percebo nada do assunto, remeto-me à minha ignorância e resolvo ouvir o que tem para dizer um especialista na matéria em relação às personalidades de algumas das pessoas mais conhecidas do País. É certamente mais inofensivo do que certas conclusões horríveis – e falsas – que respeitáveis ciências já nos ofereceram ao longo do tempo, a começar na sagrada medicina. E pelo menos é divertido – aliás, a imprensa dita de referência até publicou trabalhos a explicar os fundamentos teóricos desta especialidade, dando-lhe crédito e estatuto... E não deixa de ser curioso verificar como o senhor Julián Gabarre consegue descrever as seis pessoas que lhe apresentámos de uma forma que parece ser absolutamente coerente com o que sabemos delas.
in 24horas, 23 de Junho de 2009
Plásticas e Moniz
Aproveitar as modernas técnicas de cirurgia estética para fazer umas “emendas” no corpo começa a ser algo corrente e banal. Profissionalmente apercebi-me, de há uns quatro anos para cá, no mundo dos artistas, dos jornalistas de TV, dos apresentadores, dos famosos das festas, que devem contar-se pelos dedos de uma mão os que não têm um bocado de silicone enfiado algures, ou pivôs a acertar os dentes, ou uma injecção de botox a eliminar rugas ou qualquer outra trapalhada dessas. O curioso é que, apesar dessa banalidade, há ainda um manto de vergonha que leva essas pessoas a não quererem falar publicamente sobre o assunto, como se a opção que tomaram os diminuísse publicamente. São, por isso, notáveis as declarações que hoje publicamos neste 24horas.
José Eduardo Moniz desistiu da candidatura no Benfica. Falou de ameaças que recebeu. Acredito na existência dessas ameaças, pois são semelhantes às que, com frequência, aqui recebemos sempre que, por alguma razão, publicamos notícias polémicas sobre um qualquer clube de futebol. Uma lamentável miséria mental.
in 24horas, 19 de Junho de 2009
De que vivem eles?
O mistério – e a palavra não é excessiva – sobre como vivem economicamente muitos dos famosos ou candidatos a famosos que pululam nas festas e eventos sociais não é assunto de menor importância, como aliás quase tudo o que diz respeito ao chamado mundo cor-de-rosa. Apeça que hoje o 24horas publica sobre o tema revela padrões de comportamento, éticas e visões sobre o papel do indivíduo na sociedade de pessoas que, dada a sua presença constante na comunicação social, terão de ser classificadas como “influentes”. As suas atitudes tendem, por isso, a ser mimetizadas por outros e, até, a padronizarem- se. E se não é discutível a opção de muitos destes “papa-festas”, por ser óbvio terem uma vida organizada e estruturada onde se enquadra coerentemente a ida constante ao chamado “evento social”, outras há onde essa opção surge nitidamente como tentativa de conseguir promoção e estatuto por um caminho que não tem mérito, talento ou qualquer outra qualidade. E isto é perigoso. É perigoso para estes alpinistas sociais, que vivem uma trágico-comédia patética que acabará mal. E é perigoso para a sociedade em geral, que tende a rever-se nesta loucura.
in 24horas, 15 de Junho de 2009
Os Gloriosos Malucos Do Râguebi Nacional, Pedro Tadeu, Director do 24 Horas
Esta crónica foi escrita pouco depois do primeiro jogo do campeonato do Mundo de Râguebi de 2007 em França, Portugal - Escócia, por uma besta (à falta de pior descrição que não soe a insultuosa) chamada Pedro Tadeu que é tão só o director do pior jornal português, ora atentem:
Os mistérios que abalam Portugal
Antes de Carlos Cruz trazer para Portugal “Gabriela, Cravo e Canela”, as novelas que divertiam o País eram duas: a luta política e os mistérios dos jornais. Adorei o caso do “Leão de Rio Maior”.
Se a memória não me atraiçoa – eu nessa altura tinha para aí uns 12 anos – o jornal “A Capital”, creio que através de uma reportagem de José Sarabando, futuro director do jornal, trouxe a notícia em primeira mão: umas capoeiras tinham sido atacadas na zona de Rio Maior e a criação foi selvaticamente comida. Alguém jurava que tinha visto um gato enorme. Estava feito o caso – andava um leão à solta em Rio Maior. Foi a histeria!
Todos os dias, “A Capital” e o “Diário Popular” (os jornais circunspectos acompanhavam a coisa mais à distância) disputavam “cachas” sobre o acontecimento: ou umas pegadas misteriosas, ou mais animais mortos, ou mais um velhote camponês que jurava que o tinha visto. Escreveram-se indignados editoriais ao estilo, “então as autoridades nada fazem!?”(aí, claro, os ditos jornais circunspectos fartaram- -se de brilhar). As populações diziam-se inseguras. Presidentes de câmara, governadores civis, polícias, políticos e governantes pronunciaram-se sobre o assunto ou largavam piadas. E o jornalista Fernando Pessa, da RTP, deslocou-se a Rio Maior para realizar uma reportagem a preto e branco, meio gozona, mas a deitar mais achas para a fogueira.
Ofinal é que não foi digno de novela: se não estou em erro, tudo não passava de uma matilha de cães abandonados que fazia pela vida e caçava o que encontrava.
Agora que somos um país evoluído, com TV a cores, vários canais privados, e com um único leão em Rio Maior (o cartoonista Maia, que faz o desenho desta página), há que dizê-lo: o que é esta história ao pé do mistério que nos próximos meses vai ocupar a cabeça dos portugueses? Quem matou o António? Eu aposto na criada. Mas devo estar errado.
in 24horas, 2 de Julho de 2005
Sim, podem chamar-me gordo
Sim, estou gordíssimo e, por isso, até já pus a hipótese de fazer uma dieta. Nunca, na vida, pensei andar preocupado com esta questão. Mas a verdade é só uma: cada vez compreendo melhor os malucos (e as malucas) das dietas.
Vamos lá ver: durante 41 anos Pedro Tadeu era sinónimo de magrinho, lingrinhas, esterlicadinho, fio de azeite, magricelas, tipo que passa pelos intervalos da chuva. A minha mãezinha tornou-se obcecada em mandar-me comer, pois receava a minha morte próxima, por anemia ou qualquer doença do género “fraqueza”. A louca da minha mulher elogiava a minha ausência de barriga e achava graça ser capaz de rodear o meu corpo apenas com um braço. Enfim, habituei-me a ser um gajo com mau aspecto e fiz disso um estilo, ou melhor, uma personalidade.
Portanto, Pedro Tadeu era um sujeito com 1 metro e 78, levitando em 54 quilos. E era feliz. Até ao momento em que decidi deixar de fumar. Curado o vício, um dia, na casa de banho, passei nu, de fugida, frente ao espelho e, pelo canto do olho, vi qualquer coisa estranha. Recuei, olhei melhor e..., sim, era uma barriguinha! Uma pequena, insignificante e miserável barriguinha! Fui à balança. A primeira vez em 10 ou 15 anos...
Como sempre fui um esfomeado, não consigo parar de comer. A dieta é impossível. Fazer ginástica parece-me incómodo a mais. Tomar pílulas deve ser perigoso. Voltar a fumar é um suicídio. Portanto, ao contrário dos vitoriosos sobre o estômago hoje em foco nesta revista, vou ter de admitir a derrota e habituar-me a um novo Pedro Tadeu, um tipo que continua feioso mas, ainda por cima, um pouco roliço. Talvez arruíne a minha vida e os que me amam passem a detestar-me, pois não sou a mesma pessoa. É que, afinal, 65 quilos é uma enormidade!
in 24horas, 18 de Junho de 2005
O senhor doutor tem prioridade
É verdade que quase todos os dias encontro muito doutor que é estúpido. E muita gente sem estudos que é inteligente, culta e informada. Mas, nos tempos que correm, é praticamente suicídio profissional não tirar uma licenciatura e os doutores, mesmo estúpidos, estão em larga vantagem.
Vou confessar-vos uma coisa: eu não sou doutor... Mas ando a enganar toda a gente há uma data de tempo. Um dia, aí há uns 10 anos, prosseguia eu uma feliz brilhante carreira de figura apagada do jornalismo (sorte do jornalismo, diga-se), quando, numa recepção de um edifício, um segurança que me ia dar acesso a um entrevistado se virou para mim e exclamou: “Faça então o favor de entrar, senhor doutor!”. Fiquei tão extasiado que nem consegui pronunciar palavra.
Andei com esse peso na consciência durante uns tempos até que, ao telefone, alguém do outro lado voltou a usar a mágica formulação: “Ó sôr doutor, então não vê que...”. Dessa vez informei: “Eu não sou doutor”. Foi a última vez que fiz tal disparate. Senti-me, em segundos, a passar de cavalo para burro e do outro lado veio uma onda de petulância e falta de respeito que nunca mais admiti a alguém.
Ser doutor tem muitas vantagens: a primeira é ter estudado, ter ganho instrumentos para um pensamento estruturado, usar intuitivamente um método de análise, ter maior facilidade em usar a cultura adquirida. Mas ser doutor no nosso país ainda é mais do que isso: é ter estatuto, é pertencer à aristocracia, é ser da elite, é ter prioridade.
Por isso, caro leitor, não siga o meu exemplo nem o das sete pessoas que são objecto do tema de capa desta revista: faça-se doutor e goze muito com isso.
in 24horas, 11 de Junho de 2005
A luta pela sua própria verdade
Qual é a melhor maneira de resolver o impacto de um erro de palmatória? Daqueles que cometemos de forma pateticamente vistosa, provocando comentários por todo o lado? Daqueles que nos enchem de vergonha por, ainda por cima, embaraçarem as nossas mãezinhas? Daqueles que se arriscam a ficar colados à nossa pele, para toda a eternidade, com uma frase do tipo: “Olha o Tadeu, o fulano que fez aquela gaffe genial...”?
Eu só conheço duas maneiras de resolver isto: ou ser o primeiro a confessar tudo ou negar tudo até à exaustão dos outros. Na vida tenho, na maior parte das vezes, optado pela primeira hipótese. Isto resulta do que aprendi nas escola. De vez em quando um colega qualquer experimentava pespegar-me uma alcunha. Por exemplo: “Tu és o Salsicha!”, gargalhava um, a propósito da minha magreza. Eu sorria e dizia: “Pois é, que engraçado, é mesmo tal e qual!”. E seguia em frente, como se nada se passasse. O riso do outro esmorecia, lia-lhe mesmo na cara o pensamento “este tipo não se pica com nada”, e o dia prosseguia com actividades mais interessantes como, por exemplo, ir para umas obras fazer batalhas de lançamento de tijolos partidos.
Mas quando o assunto é mesmo sério há que recorrer à outra técnica, que exige muito maior persistência, não resulta totalmente e deixa marcas profundas, pois obriga a uma luta desgastante. É o caso dos árbitros de futebol que hoje entrevistamos, a propósito de supostos erros de julgamento que influenciaram resultados em jogos decisivos. Todos eles negam ter cometido tais erros e apresentam muitos e bons argumentos para sustentar as suas teses. Eles negam e provavelmente estão cheios de razão. Mas muitos e muitos continuarão a dizer que eles não têm tudo menos essa tal razão. Para estes árbitros, a luta pela sua verdade ainda agora começou.
in 24horas, 4 de Junho de 2005
Ter ou não ter olhos na cara
Não conheço profissão que se vista pior, que se apresente mais desleixada no seu local de trabalho, que cultive até à insanidade uma olímpica indiferença perante a roupa, do que esta profissão de jornalista.
Dos, para aí, 10 mil jornalistas que existem há apenas algumas centenas de excepções à regra dos maltrapilhos do Poder: as do mundo do jornalismo televisivo, entre os tipos dos jornais económicos, de, apesar de tudo, um número significativo de mulheres e, ainda, entre directores de jornais (sem contar comigo, pois, como toda a gente sabe, sou um selvagem sem educação e, por isso, para irritação da minha mãezinha, ando sempre mal-pronto).
E, no entanto, os jornalistas – como nós aqui no 24horas –, esses pretensiosos na garganta e parolos na traparia, têm a grandessíssima lata de analisar e criticar as vestimentas dos profissionais do bom aspecto: modelos, artistas, socialites, costureiros, apresentadores de televisão, políticos, donos de bares, jogadores de futebol, etc., etc. Então sobre mulheres, somos mesmo impiedosos. Que grande lata!
Respeitando essa tradição de despeito no mundo dos jornais, esta semana decidimos eleger aquelas que, na nossa habilitada opinião, são as 10 mulheres mais mal vestidas do País. Foi feita uma eleição na redacção e deu o resultado que, mais à frente, poderão analisar. Uma das “vítimas” desta nossa maldade respondeu-nos, acerca deste assunto: “Acho que as pessoas que votaram em mim não têm olhos na cara.” Em teoria, face ao que atrás foi exposto, ela até é bem capaz ter razão. Mas, caro leitor, temos maneira de resolver esta questão: certamente será pessoa com olhos na cara, por isso, veja as fotos, e ajuíze por si.
in 24horas, 28 de Maio de 2005
Mata-me este medo das doenças
Faço o possível por não ir ao médico. Quando era miúdo e ia lá para uma visita de rotina saía sempre doente, com uma receita de comprimidos passada e uma lista infindável de exames e análises a fazer, o que era muito inconveniente para as minhas saudáveis tardes a jogar futebol com os amigos.
Assim que tive autonomia para isso deixei de ir ao médico. Em vinte e tal anos fui lá uma primeira vez por ter apanhado uma pneumonia, uma segunda vez para fazer um seguro de vida e uma terceira para ouvir conselhos sobre a maneira de deixar de fumar.
Da primeira vez curaram-me a doença à força de antibióticos mas ameaçaram- -me com a morte para breve caso eu não fizesse uma vida decente. Prossegui a vida indecente do costume e ainda cá ando. Da segunda vez chegaram à conclusão que a companhia de seguros perdia dinheiro se eu não arranjasse maneira de me transformar num tipo saudável. Preferi pagar um prémio mais caro. Da terceira vez encorajaram-me a deixar de fumar mas acharam que eu tinha poucas hipóteses de êxito. À traição, aproveitaram-se da minha fraqueza e enfiaram-me a vacina contra o tétano, o que não tinha nada a ver com o assunto. (A propósito: senhora doutora, não fumo há cinco meses!).
No fundo, como toda a gente, eu tenho é um medo louco de morrer e, como toda a gente, sempre que sei mais coisas sobre a minha saúde ou leio artigos como o ranking desta semana nesta revista onde vejo sintomas de doenças fatais que imagino logo ter, esse receio cresce até ao nível do pânico.
A ignorância é perigosa mas o saber mata de medo. Pelo menos para um mariquinhas como eu.
in 24horas, 30 de Abril de 2005
Isto não é só uma questão de sorte
Tenho uma filha de 15 anos que é a melhor filha do mundo: é bonita, inteligente, divertida, não dá problemas. É verdade que namora um tipo com 1,90m, o que é um bocado acima do recomendável, mas como eu acho que não devo abusar da sorte, trato de não me queixar e até sou simpático para ele.
Quando eu e a minha mulher decidimos fazer esta menina, eu já tinha cá na cabeça a ideia de não fazer outros filhos. Porquê? Por achar que não tinha condições de vida para dar a dois ou a três o que achava essencial e podia, apenas, dar a um.
A extraordinária rapariga esotérica
Numa fase do liceu fiz parte de um grupo de 20 ou 30 adolescentes que saíam juntos para todo o lado. A maioria eram raparigas. Pertenciam a uma tribo que nós, os machões atrevidotes, designávamos por “freaks-betas”. O que eram as “freak-betas”? Poderei descrever desta forma: apesar de usarem saias indianas compridas a esconder o corpo, apesar de preferirem botas caneleiras a sapatos de cabedal, apesar de se matarem por um lenço palestiniano e ignorarem olimpicamente qualquer pedaço de seda Chanel... eram lindas de morrer!
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