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As minhas férias preferidas

Estou prontinho para partir de férias e o meu destino é este: a minha casa. Não, não se trata de alguma mansão no Algarve que possua, como os ricos, é mesmo a casa onde vivo: vou enfiar-me lá e, pelo menos durante uma semana, ninguém me tira dali.

Eu não sei como a minha família me aguenta, mas a verdade, a verdadinha, é esta: detesto ir à praia, detesto viajar, detesto calor, detesto agitação, detesto discotecas e, para ser franco, não gosto muito de férias, pois, dado o que atrás ficou explanado, não sei o que fazer nesse período.

Para mim as férias só têm uma vantagem: licença para dormir. Na primeira semana de paragem de trabalho a actividade mais assinalável a que me dedico é viajar da cama para o sofá frente ao televisor e, em ambos os locais, dedicar-me ao acto criativo de ressonar melodias interessantes. No intervalo viajo lentamente até à mesa de jantar para trincar alguma coisa, mas, depressa, depressinha, volto a deitar- -me perante as imagens das velharias transmitidas pela SIC Comédia – uma droga soporífera ultra-eficaz.

Os outros dias das férias são mais difíceis para mim, mas aceito fazer algumas concessões de sociabilidade. Passo-os, no entanto, da forma mais introspectiva possível: não faço projectos nem planos, não tomo iniciativas, não dou sugestões. Olho para o infinito como se estivesse a pensar em algo e, simplesmente, vou atrás, arrastando-me, da minha mulher e da minha filha para onde elas quiserem. De vez em quando refilo um bocadinho a ver se consigo voltar para casa.

Conclusão: tendo eu uma vida tão desinteressante só me restava mesmo ser jornalista e dedicar-me a bisbilhotar a vida dos outros. Boas férias, leitor.

in 24horas, 29 de Julho de 2006

A trabalheira de criar filhos

Se fui, sou ou virei a ser um pai razoável só a minha filha soube, saberá ou virá a saber. Seja como for, eu nunca lhe perguntei, nem lhe pergunto, nem lhe irei perguntar alguma coisa sobre esse assunto, não vá o diabo tecê-las...

Mas sei que lhe mudei dezenas de vezes as fraldas. Sei que andei quilómetros em círculo, às escuras, horas e horas, carregando-a no colo à espera do bendito sono dela. Sei que acordei milhares de vezes, assustado, e fui a correr à sua cama para acabar com o que a fazia chorar. Sei que lhe limpei um milhão de vezes a boca suja de papa. Sei que lhe segurei a mão quando, pela primeira vez, ela conseguiu andar. Sei que a ensinei a lavar as mãos com sabonete. Sei que arranjei um truque para ela deixar de dizer “mánica fotogáfrica”. Sei que a segurei pelos pés e a virei ao contrário para ela rir às gargalhadas. Sei que inventei uma maneira de brincarmos na rua, a passear, que era só nossa. Sei que a levantava até ela lá chegar e a deixava marcar os códigos e tirar o dinheiro das caixas multibanco, para desespero dos coitados que ficavam atrás de mim, na fila, à espera. Sei que lhe expliquei o que era a morte quando ela perguntou o que acontecera a um primo nosso. E sei que me lembro disto tudo, do tempo em que ela foi bebé, e que ela agora, quase uma mulher, não se lembra de quase nada.

Enquanto os nossos filhos são pequeninos nós temos essa grande vantagem sobre eles: tudo o que eles nos deram é mesmo só nosso, toda essa memória feliz ficou guardada cá dentro e mais ninguém, nem eles, sabem voltar a vê-la, ouvila, senti-la ou cheirá-la. É por isso que para nós, os afortunados da vida, os favorecidos pela sorte, não houve sacrifício, cansaço, insónia, confusão, medos ou gritos. Houve, apenas, sorrisos, sorrisos e sorrisos.

in 24horas, 22 de Julho de 2006

O mundo secreto das grávidas

Há uma fase na gravidez das mulheres de tal maneira enternecedora que nos dá uma vontade quase irreprimível de as enchermos de miminhos. É numa altura em que a barriga delas parece uma pequena bola, de vez em quando acariciada, com toda a suavidade, pela macieza maternal de umas mãos ligeiramente papudas. De resto, todo o corpo delas já inchou um bocadinho, mas ainda não é um peso, parece apenas ter decidido chamar a atenção do mundo para reclamar o direito a sorrisos de cumplicidade dos transeuntes: “Olha, que giro! Vai ali uma grávida”, parecem exclamar, inevitáveis, os sorrisos nas caras dos que se cruzam com essas mulheres. Mas elas, metidas consigo mesmo, passam indiferentes aos olhares dos outros, obcecadas em ver para dentro de si próprias, em ouvir, em tactear, em cheirar, em saborear a invasão que ocupou tudo aquilo que elas são. E, por sua vez, sorriem, sorriem muito, vá lá saber-se claramente porquê.

Aqui na redacção há, neste momento, três mulheres a atravessar essa fase mansa da gravidez. Cada vez que tenho de falar com alguma recebo um ligeiríssimo sobressalto, como quem acorda de um sono ligeiro. Sinto sempre que estou a interromper qualquer coisa que não devia, mas lá ponho a minha carantonha de director e trato dos im-por-tan-tís-si-mos afazeres profissionais que motorizam a minha vida. Mas, claro, elas relativizam a minha pressa, a minha ansiedade, porque acerca de coisas verdadeiramente importantes, agora, elas é que sabem tudo, não eu. E lá ando, pequenino, humilde, a pedir atenção e o favor de, no intervalo dos segredinhos com a barriga, elas escreverem a noticiazinha de capa deste jornal...

Bom... Acho que vou ali fazer uma escala de serviço para as mulheres desta redacção engravidarem à vez...

in 24horas, 15 de Julho de 2006

A educação dos filhos da televisão

O êxito extraordinário dos “Morangos com Açúcar” foi olimpicamente ignorado pela maioria dos jornais (com a excepção, desculpem lá a gabarolice, aqui do 24horas) até ao momento do acidente de automóvel que vitimou mortalmente o jovem que encarnava a personagem “Dino” naquela série. E isto apesar de, provavelmente, este programa de televisão ter mais influência na formação moral e ética de toda uma geração de jovens do que o próprio sistema de ensino e, lamento, uma grande massa de pais incapazes.

Juntou-se agora a “Floribella”, o êxito repete-se, soma-se e chega para os dois programas, apesar de me parecer que a aposta da SIC terá adeptos um pouco mais novos que a produção da TVI. Mas isso, para a questão que me traz aqui, é irrelevante.

E a questão que me traz aqui é esta: os “Morangos” e a “Floribella” estão a fazer bem ou mal aos nossos adolescentes? Vou falar pela minha experiência que vale o mesmo que a de qualquer outro pai. Quando os “Morangos” começaram a ser transmitidos a minha filha estava na idade de se interessar e, disfarçadamente – como fiz com séries brasileiras congéneres como a “Malhação” – espreitei, não fosse o Diabo tecê-las...

E tenho a dizer bem. As séries deste tipo tratam os adolescentes como gente inteligente. Não lhes impingem um mundo cor-de-rosa e ajudam-nos a problematizar temas centrais na vida deles, como as primeiras relações amorosas, os conflitos na escola e em casa, a droga, etc. Há um sentido de bem e de mal que se sobrepõe ao próprio enredo da série que corresponde ao sentido de bem e de mal que nós desejamos que os nossos filhos adquiram. Há um frequente apelo à solidariedade e ao empenhamento cívico que me parece relevante. E com a vantagem de tudo isto ser servido sem ponta de paternalismo. Por mim, acho brilhante e, como pai, agradeço a ajudinha.

in 24horas, 8 de Julho de 2006

Utilização do corpo na publicidade

Na publicidade o corpo feminino é explorado há centena e meia de anos, com maior ou menor despudor, para nos chamar a atenção e, dessa forma, queimar a primeira etapa do processo de sedução que nos acaba por convencer a comprar qualquer coisa. A maior caricatura da coisa são os clássicos anúncios de automóveis, em cima dos quais se deitam mulheres lindíssimas, seminuas. É uma técnica publicitária com barbas, que deve resultar imenso, pois resiste ao tempo e às modas, mas que ultrapassa a minha compreensão, pois não consigo vislumbrar no automóvel qualquer conotação sexual e não consigo ler na mulher deitada qualquer informação relevante.

Durante muito tempo ouvi mulheres a protestar por esse tipo de publicidade ser sexista, discriminatório e imoral. Tinham razão mas ninguém as levou a sério. O protesto não lhes valeu de nada e, de há 20 anos para cá, perdeu um bocado de sentido por também o corpo masculino ter começado a aparecer em preparos semelhantes. Ou seja, as femininistas tiverem uma vitória de Pirro.

Como sou director de jornal e pagam-me para escrever todos os dias, sou obrigado a ter teorias sobre tudo, mesmo que a maior parte delas seja, simplesmente, idiota. A minha teoria de hoje é que com o excesso de corpos seminus na publicidade e na comunicação social, o poder da sugestão sensual com fins comerciais vai, pura e simplesmente, desaparecer, pois acabaremos todos por ficar fartos...

Claro, é uma teoria parva e, por via das dúvidas, até pus na capa desta revista uma foto lindíssima da Mónica Sofia – uma das mulheres mais bonitas de Portugal – para ver se o convencia a si, seduzível leitor ou leitora, a comprar o 24horas. Pronto, pode chamar-me, também, grande hipócrita.


in 24horas, 1 de Julho de 2006

O problema do tampo da sanita

Mandei uma rapariga fazer uma reportagem sobre os defeitos dos maridos portugueses e, pimba!, levei logo com a história do homem que não baixa o tampo da sanita, no caso o coitado do José Maria Tallon. Quando eu e a minha mulher começámos a namorar tínhamos uma amiga comum que fazia jogo duplo e me contava tudo – pensava eu – sobre o que a Catarina comentava a meu respeito. Pois apesar de ela achar que eu poderia vir a ser o pai dos filhos dela, indicava como um dos meus defeitos insuportáveis esse de não baixar o tampo da sanita.

Pior. Um dia lá tive de ir a casa da mãe da Catarina para ser apresentado como namorado oficial. Fui simpático, como me competia, não me atrapalhei muito com o previsível inquérito policial a que fui sujeito. Jantei lá e, ao fim da noite, pediram-me para ir à cozinha buscar qualquer coisa. Pouco antes de voltar a entrar na sala ouvi este diálogo: – Então mãe? Que achas dele? – Parece bom rapaz. Mas, de certeza, não fecha a tampa da sanita. Pronto, ficou-me o trauma e de vez em quando, durante anos, dei por mim a pensar: “Mas que obsessão têm as mulheres com esta questão da tampa da sanita? Qual é o drama? Será por razões estéticas? Será uma fobia? Porquê?”

Só ao fim de uns anos é que tive coragem para falar disto à minha mulher e a resposta dela foi exactamente igual à explicação que Sofia Ribeiro dá no caso de Tallon: “É que vocês, homens, esquecem-se que nós podemos precisar de utilizar a sanita a seguir a vocês, pelo que podiam facilitar-nos a vida e deixar o tampo para baixo”.

Conclusão? Como é óbvio, o problema não está no subir ou no baixar do tal tampo, coisa fácil que demora meio segundo. O problema está é que nem na casa-de-banho as mulheres admitem que nós, homens, deixemos de pensar nelas.

in 24horas, 24 de Junho de 2006

Rapazes e mulheres do futebol

Não sei se o lugar-comum “por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher” – frase que soa a terrível machismo ao implicar a secundarização do papel da mulher, mas que pacifica e acriticamente vamos usando – se aplica aos jogadores de futebol. Sei é que se olharmos para o ranking que hoje o 24horas publica se revela uma evidência: por detrás de um grande jogador de futebol está sempre uma mulher extraordinariamente bonita.

Posso garantir, pela experiência profissional e pela vida pessoal que já levo, que por detrás de um grande engenheiro, de um grande médico, de um grande empresário, de um grande jornalista, de um grande advogado estarão quase sempre mulheres extraordinárias, mas não é regra que sejam especialmente bonitas: pode ser que sim, mas também pode ser que sejam feias como a noite de trovões.

Mas esta observação nada tem de especial, é mesmo óbvia. A pergunta a que teremos de responder, o mistério que há para resolver é outro: porque terão os grande jogadores de futebol, invariavelmente, mulheres muito belas? O que os leva, sempre, a procurar raparigasmodelo, de corpo escultural e dentição perfeita? É verdade que os grandes ídolos têm milhares de fãs a rojarem-se aos seus pés, o que diversifica a oferta delas. Mas isto não explica o tipo de procura deles.

Eu não tenho a resposta, mas sei uma coisa: todos os miúdos sonham ser jogadores de futebol e cobrir- -se assim de glória, serem heróis modernos, talvez como o Figo. Na Grécia Antiga todos os miúdos sonhavam ser príncipes gloriosos, causadores de grandes guerras, talvez como Páris. Este tinha Helena de Tróia, aquele tem Helen Swedin.

A queda na valeta da fama

Todas as crianças querem ser artistas famosas. E o problema maior é que os paizinhos também querem que as suas crianças sejam artistas famosas. Nas classes sociais remediadas – sem meios para dar formação artística a sério aos seus rebentos, mas onde se anseia e alimenta uma congénita ilusão acerca deste assunto – isso justifica o elevado número de inscrições de raparigas fisicamente desproporcionadas em fictícias escolas de dança jazz e hip-hop ou o extraordinário número da rapazes de ouvido duro que dedicam duas horas por semana do seu tempo a martelar um piano numa escola de música de vão de escada. Em 90 por cento dos casos essas miúdas e esses miúdos, ao fim de três meses, estão a pedir para sair dali, naquela que será a primeira de muitas desistências que farão na vida. Mas, muito francamente, as consequências negativas de tudo isto são diminutas e, na verdade, eles até ficam a ganhar alguma coisa com a experiência.

A indústria da televisão, ou melhor, a indústria das novelas e séries que a TVI e a NBP construíram em Portugal, mais os “Ídolos” e quejandos, vieram abrir uma variante a este panorama. É a geração de jovens – por ano são muitos milhares – que se atira à sorte de um casting. Os que acabam por entrar – às dezenas por ano – chegam verdinhos a um demolidor mundo profissional para o qual nada os preparou. E, ao contrário da fantasia das meninas e meninos das escolas de dança e música, aqui não há recuo, ninguém – pais, produtores, managers, agências – aceitará que eles desistam, a não ser quando a pórpria indústria decide desistir deles, mandando-os para uma espécie de valeta da fama. O problema está em que, depois, ninguém vai lá tirá-los da fossa.

in 24horas, 3 de Junho de 2006

Como deixei de ser incomodado

Como não sou um tipo famoso nunca fui assediado por fãs. Mas é verdade que ao longo desta minha vidinha de jornalista recebi, de vez em quando, cartas ameaçadoras ou telefonemas incómodos. Os mais aborrecidos e insistentes ocorreram há cerca de três anos, quando o noticiário sobre o processo Casa Pia reflectia a recente prisão de Carlos Cruz: inúmeros SMS e até algumas chamadas de voz para o meu telemóvel informaram-me que havia alguém que achava que eu estava feito com os pedófilos, que eu tinha sido comprado pelos pedófilos, que eu próprio era pedófilo, que um dia esse alguém trataria, de forma sexual e violenta, de me mostrar o castigo que um pedófilo merece e, finalmente, que todos os que trabalhavam no 24horas eram (adivinhem lá...) pedófilos. Era um bocado chato e muita pedofilia para um telemóvel só.

Mas foi muito fácil resolver o problema. Não mudei de número nem dei o aparelho à minha secretária para ela passar a atender as chamadas: simplesmente desliguei-o. Ao fim de uns dias desistiram. Agora só o ligo quando preciso de fazer chamadas ou em alturas, raras, onde quem me interessa não me pode contactar de outra maneira.

Devo dizer que sou obrigado a agradecer aos senhores que tanto me insultaram, pois assim proporcionaram-me uma alteração de hábitos que melhorou substancialmente a qualidade da minha vida: todos os que me rodeiam já sabem que, no telemóvel, raramente me apanham e, por isso, a quantidade de vezes que me chateiam por razões tolas é mínima. Foi uma espécie de libertação de um escravo: agora quase só tenho conversas realmente úteis. Adeus stresse de jornalista, adeus boatos e tricas, adeus “não publique essa notícia!”, adeus choque tecnológico. Conclusão? O problema nestas sociedades da comunicação é mesmo o “blá blá” a mais.

in 24horas, 20 de Maio de 2006

O jogo que eu já não quero jogar

Estava a discutir o título para a capa desta revista quando me saí com uma frase pateta: “Bem, no trabalho eu também passo muitas horas por dia com raparigas e não me ponho por aí a apaixonar-me”. Uma das jornalistas presentes nessa reunião, sem me deixar tempo para respirar, atirou: “O Tadeu desculpe, mas o Tadeu é casado!...”. Portanto, a mim, no consenso generalizado das mulheres que me rodeiam, desde há 18 anos, desde o dia em que dei o nó, já não se aplica o estatuto de pessoa que pode apaixonar-se. Está proibido, acabou, finito... Eis qualquer coisa que me chocou.

Há 18 anos jurei fidelidade à minha mulher e o problema que se coloca é este: estando fora de causa um envolvimento sexual com alguém – por favor, não vamos por aí! –, será motivo para alegar infidelidade uma paixoneta platónica, um simples encantamento até legitimado pelo facto de à minha volta trabalharem várias mulheres inteligentes, bonitas e excelentes pessoas? Não poderia, no recato da minha consciência, no segredo dos meus pensamentos secretos, reservar algum tipo de sentimento romântico que, mesmo sem se manifestar exteriormente, me alimentasse os sonhos, o ego, a autoestima?

A coisa está moralmente resolvida por uma regra simples que tento seguir: “não faças aos outros o que não queres que façam a ti”. A minha opção, portanto, é nunca me apaixonar. Portanto, meninas, têm razão, para mim a excitação do jogo da conquista terminou, essa competição já não me serve, estou fora. Podem ver-me como um eunuco, que as alegrias do matrimónio são mais que muitas.

Então qual é o meu problema? É que aquela frase daquela jornalista, naquela reunião, no fundo, no fundo, lembrou-me que tenho saudades de jogar uma, só uma partidinha mais...

in 24horas, 13 de Maio de 2006

Ganhar dinheiro só por ir ao sítio

Um dos negócios mais estranhos que as notícias do 24horas e de algumas revistas revelaram ao País, ao fim de anos de clandestinidade mal escondida, é este: famosos ou candidatos a famosos que obtêm o estatuto suficiente para conseguirem receber dinheiro em troca de agraciarem os pagantes com a sua “presença” numlocal. E o que é uma “presença”? É ir a um sítio, beber uns copos, comer uns canapés, sorrir, assinar uns autógrafos, deixar-se fotografar na companhia da pessoa que paga e, depois, ir-se embora com o cheque no bolso.

Discotecas, bares, lançamentos de livros, de discos ou de artigos de moda, inaugurações, tudo serve para alguém vender as sua ida ao local e alguém querer comprar o direito de mostrar essa pessoa ao mundo, anunciando-a à comunicação social que, se os nomes prometidos no evento forem suficientemente apelativos, não faltará com um batalhão de fotógrafos e câmaras de televisão.

A coisa está altamente profissionalizada, há agências que gerem esta “carreira” para os seus “artistas” e nelas estão inscritas as mais fantásticas pessoas: modelos, actores, escritores, empresários, gente de boas famílias, gente gira, eu sei lá! Tudo isto já movimenta milhões de contos por ano. Carla Matadinho, por exemplo, conta nesta revista que ganha mais com uma “presença” dessas do que muita gente com um mês de trabalho e há, por dia, dezenas de iniciativas com a “presença” de famosos pagos. As Finanças, se soubessem, eram capazes de achar muita graça mas, como nós no 24horas, não resolveriam o eterno problema do ovo e da galinha: quem nasce primeiro, a fama ou o proveito?

E porque é que isto é um negócio estranho? Porque, na minha cabecinha de quarentão, quem vai a um bar ou a uma discoteca não recebe dinheiro – paga e não é pouco. Mas, pelos vistos, isso é coisa desactualizada.

in 24horas, 29 de Abril de 2009

Tudo o que sei sobre divórcios

Estou casado vai para 18 anos mas, não fosse eu jornalista, é claro que tenho opiniões muito definitivas, inteligentes e inúteis acerca do divórcio. Vou dar três...

Em primeiro lugar, o divórcio não é um negócio de duas pessoas mas sim, no mínimo, do casal e mais uma: ou um amante, ou uma mãe, ou uma sogra, ou um amigo, ou um advogado, ou um agente imobiliário; há sempre alguém exterior que ajuda a desatar o nó do casamento. Duas pessoas sozinhas nunca o conseguem. Até Adão e Eva, condenados à eternidade no Paraíso, à falta de melhor procuraram a serpente para se libertarem da jura de fidelidade a Deus.

Em segundo lugar, o divórcio é mesmo uma morte, é mesmo o fim de uma vida e, tragicamente, há muita gente incapaz de renascer depois desse corte abrupto consigo próprio, desse confronto com a fraude do seu amor, dessa vergonha pelo tempo de falsificação da sua representação pública como indivíduo acasalado. É verdade que há quem aproveite as lágrimas – inevitáveis – para regar a alma e sair do processo florido e viçoso, pronto para outra metamorfose. Só que, lamento, mesmo esse renascimento é feito à custa da perda da inocência, da perda de tempo, da perda da juventude, da perda da espontaneidade, da perda... Nunca mais seremos os mesmos.

Em terceiro lugar, o divórcio é a prova que a Matemática é obra do demónio (talvez da mesma serpente que ajudou Adão e Eva): a divisão dos livros, a divisão das fotografias, a divisão dos discos, a divisão da casa, a divisão dos animais domésticos, a divisão das loiças, a divisão dos quadros, a divisão dos filhos (sim, até eles!), é a multiplicação de problemas insolúveis, é um somatário de agressões violentas, é a subtracção da nossa capacidade de discernimento.

A propósito de contas, reparo que me enganei no número de anos em que estou casado. Espero, por isso, não vir a aprender alguma coisa realmente útil acerca de divórcios...

in 24horas, 15 de Abril de 2006

O drama da falta de originalidade

Até há uns anos atrás odiava parecer banal. Estava mesmo convencido que se não misturasse sabiamente um certo ar de superioridade intelectual com uma dose apropriada de indiferença pelo mundo terreno corria o risco de passar por estúpido. Portanto, estúpida e banalmente, andava na vida a fingir uma originalidade bizarra, tal como todos os milhares de aspirantes a intelectuais que me rodeavam. O mais patético era a voz afectada e grave com que me dirigia ao mundo, uma distorção que só não arrasou de vez as minhas cordas vocais graças a toneladas de comprimidos Bradoral. Doía mas eu não desistia!

Uma manhã tive a sorte de estar no Louvre. Passei duas horas e meia numa fila até conseguir entrar e, claro, quando saí, no fim da tarde, ficou um mundo por ver. Não me modifiquei por causa disso, mantive-me o imbecil do costume e até tive a grandessíssima lata de comentar na roda de amigos ser o Louvre, em muitos aspectos, “uma desilusão” . Ser-se novo e arrogante é mesmo um perigo!

Mas, agora que sou um bocado velho e já não me importo com o que os outros pensam de mim, posso confessar que foi no Louvre que tive uma das maiores emoções estéticas de toda a minha vida. Foi no Louvre que percebi que uma obra-prima da arte visual se reconhece ao primeiro olhar, ao primeiro impacto, sem apelo nem agravo, sem que a procuremos: ela chama-nos, de longe e, simplesmente, não resistimos, embrenhamo-nos e, depois, deixamos cair uma lagrimita.

Mas como poderia eu confessar, palhaço diletante, ter sentido tudo isso no meio de uma overdose da história da pintura ocidental, cheia de frescos geniais, apenas por ter reparado num quadrito tão vulgar, tão trivial, tão pouco original como... a “Gioconda” de Da Vinci. Isto de ser-se humano é uma grande fatalidade!


in 24horas, 8 de Abril de 2006

A imaginação do mundo da moda

Já publicámos aqui no 24horas inúmeras entrevistas com modelos famosas, encantadoras e deslumbrantes estrelas das passarelas, pessoas de carácter perturbante, gente insensível ao peso dos olhares lúbricos e à exibição erótica do próprio corpo. Mas, para ser sincero, fico perplexo quando elas se põem a falar da adolescência e descrevem, quase invariavelmente, terem sido alcunhadas pelos colegas de carteira de “magrizelas” ou “escanzeladas”. Sugerem assim ser a magreza que as lançou na carreira algo natural, metabólico, e não o fruto de dietas milagrosas ou de plásticas habilidosas. 

O primeiro contacto que tive com o mundo da moda já foi no tempo em que os animais falavam, a televisão era a preto e branco e a patroa do meio era uma senhora chamada Maria Leonor, emblemática locutora dos primórdios da RTP, com um bocado de mau feitio, repleta de arrogância e fatos saia- -casaco. 


Uma amiga minha, já não me lembro como, foi escolhida para desfilar uns vestidos numa passagem que era apresentada e produzida por Maria Leonor. Essa minha amiga era uma morena de cabelos pretos compridos, lindíssima, de corpo muito bem desenhado (sim, estive apaixonado por ela, mas depois passou-me...), que preferia ler Álvaro de Campos a andar naqueles preparos. Mas a perspectiva de ganhar uns tostões e a pressão dos que a rodeavam lá a decidiram. 


O desastre aconteceu quando subiu à passarela: Maria Leonor anunciava ao estimado público que a Ana nascera em Luanda. Daí, insistia, a sua beleza exótica, “com sabor a África”, “selvagem e perturbante”, ideal para vestir as criações de já não sei que costureiro, adepto das “paletas de cores quentes e sensuais, típicas das paisagens africanas”. A Ana, nascida em Lisboa numa qualquer Alfredo da Costa ali ao virar da esquina, ao ouvir tanta aldrabice ia torcendo o pé nos sapatos de salto alto. Perdeu-se assim uma modelo: ela voltou para o Fernando Pessoa e nunca mais quis ouvir falar em moda.
in 24horas, 11 de Março de 2006

Revelaram-me os factos da vida

meu pai morreu muito cedo por causa de um acidente automóvel e a minha mãe viu-se, de repente, sozinha com três filhos. Naquele tempo uma mulher como a minha mãe tirava um curso menor e inútil na escola, saía directamente de casa dos pais para casa do marido, não trabalhava e diziam-lhe que não devia trabalhar, tinha empregada em casa. Se enviuvasse, o melhor que poderia esperar era que a família a ajudasse. Aos 30 anos a minha mãe não foi nisso e, sem passado ou educação profissional, sem dinheiro, sem contactos, vendo-se numa situação aflitiva num mundo machista e paternalista, não se intimidou, partiu para a luta e venceu. 

Uma das preocupações da minha mãe foi sempre tentar dar aos filhos uma educação adequada aos tempos, longe da austeridade afectiva da sua infância e, apesar das dificuldades implícitas à necessidade de trabalhar de dia e estudar à noite, acompanhando-nos muito de perto e muito “em cima” do crescimento e das mudanças de idade, desde a infância até ao final da adolescência, passando por todas as fases intermédias ou, se quiserem, as diversas “idades do armário”. 

Um dos momentos mais bonitos que passei com a minha mãe foi quando, tinha eu uns 11 ou 12 anos, ela decidiu chamar-me para ter uma conversa séria. O assunto era “falar das coisas da vida”, algo que, em princípio, segundo explicava balbuciante, estaria a cargo do meu pai mas, dadas as circunstâncias, teria de ser ela a fazer. E assim comunicou- -me que afinal aquilo da cegonha trazer crianças era apenas uma fábula, que os meninos e as meninas eram diferentes por uma razão e por aí fora... Tudo terminou com a explicação do que era o preservativo e a pílula. Tenho a dizer que ouvi tudo com muita atenção e toda aquela informação dada assim de repente veio a ser muito útil, uma data de anos mais tarde. E tenho a declarar, para concluir esta história escrita quando já tenho uma filha quase adulta, que, para além de amor, quanto mais velho fico maior admiração sinto pela minha mãe. 
in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

É difícil andar bem vestido

 Por causa do senhor procurador-geral da República, doutor Souto Moura, tenho aparecido na televisão mais vezes do que gostaria. E, claro, fico sempre irritado com a figura ridícula que faço, com os (des)penteados com que apareço e as roupitas maçadoras que envergo. Resumindo: sou um triste. 

Aminha ideia de guarda-roupa ideal é esta: calças, camisa (camisola no Inverno), sapatos e casaco. Todo este equipamento deve ter uma qualidade única: a de me fazer passar despercebido. Se fosse eu a fazer as compras adquiria o mesmo conjunto de roupas sete vezes e ia mudando à medida das necessidades de lavagem. Por obrigação institucional, guardava no armário, no meio de bolas de naftalina, um conjunto engravatado ao qual me tentaria escapar sempre que possível. 

Infelizmente nunca me consegui organizar de forma a concretizar estes simples objectivos e a minha mulher tem feito tudo para sabotar esta operação. Ainda há bocado, tinha acabado de sair do meu gabinete um procurador que veio fazer uma busca à redacção do 24horas, tocou o meu telefone. Era lá de casa. Perguntaram-me se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Respondi que não, que ela estivesse descansada. Passado um bocado dei por mim a discutir o número de calças que visto, pois como deixei de fumar há um ano e engordei uns 10 quilos, a Catarina tinha dúvidas se o 38 ainda servia. Serve. E pronto, já sei que daqui a uns dias terei umas calcitas lá em casa para substituir as que tenho um bocado coçadas. Se não fosse ela, que compra o que lhe peço, eu não andava vestido como um triste. Andava mas era nu. 
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2006

O sexo e a dança são perigosos

Já não me lembro qual foi o cerebrozinho que se saiu com esta, mas a frase é a seguinte: “a dança é a expressão vertical de um desejo horizontal”. Tiro desta tenebrosa generalização, claro, as danças de guerra, de desafio ou de trabalho, como a Haka dos Maori da Nova Zelândia, o fandango ribatejano ou o breakdance da Nova Iorque negra. Mas não compliquemos... 


O que quero dizer é que um casal a dançar a valsa, o twist, o sapateado, o disco, o samba, a gafieira, tango, maxixe, swing, salsa, bolero, rumba, o que quiserem – até patinagem artística – parece sempre estar a fazer uma única, exclusiva e significativa coisa: a simulação do acto sexual. É a minha cabecinha imoral que me impele a ver o que lá não está? Precisarei de ajuda psiquiátrica? Talvez de limpar os óculos? Ir mais vezes a casa? Calma aí! Não é preciso ser-se muito observador, não é preciso ser--se muito perspicaz, não é preciso serse muito inteligente para perceber que a dança de que aqui falo é mesmo disso que trata: procura, desafio, sedução, paixão, criação, explosão e agradecimento. Isto é, ou não é, a descrição de um acto sexual? 


Encontrada esta verdade de senhor de la Palisse vem a parte mais complicada: o ciúme. E o ciúme corrói-me por dentro, a mim que não sei dançar, que troco os pés, que sinto vergonha da hesitação destes braços nervosos e incertos, que meneio fora de tempo esta cabeça ridícula, que gingo as pernas aos tropeções descoordenados. E ciúme de quê? De todos os homens e mulheres que dançam. Porquê? Porque exibem ao mundo, espampanantes – belos e leves –, o mais lindo, íntimo e secreto dos desejos humanos. Eu não o posso fazer. E isso é uma terrível impotência. 
in 24horas, 11de Fevereiro de 2006

Todos vivemos sete vidas

Quase todos temos sete vidas para experimentar, como os gatos. Vamos lá ver. Com 1 ano tive pena de deixar de mamar. Com 3 anos adorei ir para a escola e o meu quarto tinha muitos brinquedos. Aos 5 anos planeava ser astronauta e achava as raparigas parvas. Esta foi a minha primeira vida. Foi curta mas diverti-me imenso.

Aos 9 anos planeava guiar autocarros da Carris e namorar uma data de raparigas. Aos 12 anos planeava ganhar um prémio Nobel e namorar uma data de raparigas. Aos 15 anos planeava ser guarda-redes no Sporting e namorar uma data de raparigas. Aos 16 anos planeava mudar o mundo e namorar uma data de raparigas. Aos 18 anos deixei de fazer planos. Esta foi a minha segunda vida. Foi curta e, ainda por cima, não namorei uma data de raparigas.

Aos 20 anos planeava ser uma vedeta da rádio, ajudar o meu partido, encontrar a mulher da minha vida e ter um filho. Aos 25 anos era locutor, trabalhava no meu partido e casei-me. Aos 26 anos tinha uma filha. Aos 30 anos apeteceu-me mudar de vida. Esta foi a minha terceira vida. A felicidade.

Quis ir para os jornais, quis mudar de casa, quis, apenas, mudar. Eu, a minha mulher e a minha filha mudámos. Passei a chefiar a redacção de um jornal diário e isso fazia-me cócegas ao sono, acordava a sorrir. Aos 39 anos puseram-me a dirigir o 24horas e entrei em delírio. Esta é a minha vida actual, a quarta. Ainda é curta, mas deu-me tudo o que quis ter e está a ser óptima.

Tenho um bocadito de medo das três vidas que ainda poderão vir: a maturidade, a reforma, a velhice. Não tenho brinquedos, não tenho planos, não terei mais filhos, acabarei a profissão... Mas, como um gato, se me deixarem, não resistirei à curiosidade de as experimentar. Afinal, estas sete vidas são três dias. Há que aproveitar.

in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

Juro! Sou mesmo um rapaz pacato

Eu, conforme tenho desesperadamente tentado demonstrar nestas crónicas, sou um rapaz pacato, nada dado a aventuras amorosas.

Comigo é casa-trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho, dia após dia, após dia, após dia. Comigo não há fitas, não há distracções, não há sorrisinhos cúmplices, não há cafezinhos a meio da tarde. Comigo não há conversas sobre cinema, não há conversas sobre a infância, não há conversas sobre romances de Dostoievski, não há conversas sobre músicas de Marvin Gaye, não há conversas sobre anúncios eróticos de TV, comigo, em suma, não há conversas. É tudo casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho.

Sou mesmo um rapaz pacato. Juro!, que me caia já aqui um raio (noc!, noc!, noc!, o diabo seja cego, surdo e mudo!) se for mentira. Comigo não há trocadilhos inteligentes, comigo não há prendinhas despropositadas, comigo não há carícias teatralmente casuais e inocentes, encostos de cabeças a provocar intimidade, tons de voz macios e melosos, piscares de olhos despropositados ou partidinhas infantis. É como vos digo: casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho. Juro! (entrou agora um tipo no meu gabinete a perguntar-me porque estou a fazer figas com os dedos), mas eu só penso em coisas sérias e o flirt não é uma coisa séria.

Sim, a minha vida é um bocado chata, é verdade, as mulheres olham para mim como se eu sofresse de gota histérica, seja lá o que for essa doença maluca. Mas uma coisa não me acontecerá: o 24horas não publicará a minha fotografia na capa com a frase “a partir corações”, como hoje acontece ao doutor Miguel Beleza (o tipo que entrou há bocado no meu gabinete olhou agora para o ecrã do meu computador e está a dizer “coitado de ti, precisas de um ombro amigo?”, o sacana!).

in 24horas, 28 de Janeiro de 2006

O segredo de Soraia Chaves

Hoje o tema desta revista é “cenas de sexo” e, desconfio, não há maneira de me sair bem do empreendimento de escrever sobre ele: inevitavelmente acabarei comprometido. Em primeiro lugar perante a minha mulher que, das duas uma, ou se zanga a sério ou gozará comigo o resto da vida. Em segundo lugar perante os leitores, que ou vão achar que me estou a armar em bom ou pensarão que sofro de uma frustração qualquer.

Vou então para o truque da falsa sociologia (como se houvesse sociologia verdadeira...), não falarei de mim e tentarei responder a uma curiosidade meramente científica (claro...): será que todos os portugueses querem fazer sexo com a Soraia Chaves? Sim, porque o facto de 363.312 pessoas já terem ido a correr ao cinema para ver a cena em que a modelo, nua, dá umas cambalhotas com Jorge Corrula merece reflexão... E como as mulheres que viram “O Crime do Padre Amaro” estavam apenas a tomar conta dos seus homens, a questão é pertinente, até porque há por aí muito filme estrangeiro bastante mais escaldante que este e com êxito muito menor.

A resposta que encontrei, depois de aturada reflexão e investigação estatística, é simples: a Soraia, além de bonita, é portuguesa. No meu tempo os machos iam aos magotes ao Condes ver a Helena Isabel sair nua de uma suposta nave espacial construída em plástico Domplex. Era o máximo do erotismo nacional. Agora os padrões são outros e as cenas mais picantes, mas o mecanismo básico é igual: ao ver uma actriz portuguesa numa cena de sexo, há um fenómeno de proximidade que não se sente com uma actriz americana ou francesa.

É como espreitar o quarto da vizinha. Não somos, portanto, uns tarados sexuais. Somos, apenas, uns impenitentes bisbilhoteiros. Até porque, quanto a sexo fazêmo- lo com alguém que tentamos esconder das bisbilhotices dos outros, debaixo de lençóis e com as cortinas das janelas corridas.
in 24horas, 21 de Janeiro de 2006