Os porcos da Europa que compram Bimbys

O respeitado, influente e aparentemente empenhado em arruinar a nossa vida Wall Street Journal publicou uma reportagem sobre o que leva muitos portugueses a comprarem Bimbys. Avia-nos com uma frase-chavão: "Os portugueses adoram gadgets e, apesar dos tempos difíceis, parecem determinados em manter a sua tradição de se juntarem regularmente para jantar."

Acontece que neste 2013 que agora termina (já agora: bom ano de 2014, caro leitor ou leitora) esse robô de cozinha, que custa 966 euros, bateu um recorde de vendas. Exclama o WST ser caso único na Europa pois, em ano de crise, esta máquina "vende mais do que os últimos iPads em Portugal e é mais popular no Facebook do que a banda de rock mais conhecida do país".

Ainda bem que Passos Coelho não percebe

Já li e ouvi tantas interpretações sobre a decisão do Tribunal Constituicional de impedir o corte de pensões aos reformados do Estado que fico meio abananado: como é que 11 dos 13 juízes assinam uma declaração de inconstitucionalidade (duas juízas votaram da mesma maneira mas com razões diferentes) e os políticos afetos ao Governo encontram ali argumentos para preparar outra proposta de lei que obtenha a finalidade agora falhada?

O melhor mesmo é citar o dito acórdão e a hipótese académica que ele abre: "Uma medida que pudesse intervir de forma a reduzir o montante de pensões a pagamento teria de ser uma medida tal que encontrasse um forte apoio numa solução sistémica, estrutural, destinada efetivamente a atingir os três desideratos (...): sustentabilidade do sistema público de pensões, igualdade proporcional e solidariedade entre gerações."

A palhaçada de Rodrigo Guedes de Carvalho

Uns quantos paladinos da moral e dos bons costumes jornalísticos exerceram o legítimo direito de criticar Rodrigo Guedes de Carvalho, subdiretor da redação da SIC, por ter simulado uma entrevista "a sério" ao grupo cómico apresentado como Gato Fedorento. Aqui o DN destacou duas reações - a professora doutora Estrela Serrano e o presidente do Observatório de Imprensa, Joaquim Vieira.

Escreve a senhora que já foi a alma da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: "Quando RGC (sim, a professora doutora reduziu Rodrigo Guedes de Carvalho a uma sigla) voltar a falar-nos como jornalista 'a sério' na sua cadeira de pivô do Jornal da Noite haverá quem se pergunte qual o papel que nesse dia vai representar. A credibilidade é a fonte da legitimidade de um jornalista. Hipotecá-la assim parece leviano e sem sentido."

O punho de Mandela

Um punho fechado tem significado. Simboliza a mão que se fecha sobre a ferramenta que aperta, bate, empurra, constrói. Simboliza o poder dos imperadores romanos que, de polegar para cima ou para baixo, decidiam vidas de gladiadores escravizados. Simboliza a vitória de um desportista, a luta de classes de um operário, o voo do Super-Homem ou (não se esqueça, caro leitor) a imagem oficial do Partido Socialista português.

A semiótica do punho fechado é ideologicamente contraditória mas tem uma componente sempre presente, unificadora: a força.

Um embaraço chamado Papa Francisco

Andava desconfiado de que alguns dirigentes da Igreja Portuguesa e uma parte da elite católica estavam embaraçados com o que o Papa Francisco dizia. O mote dessas reações, sempre que do Vaticano saía uma frase para a primeira página dos jornais, foi repetidamente este: "Mas a Igreja sempre disse isto. Não há aqui novidade. O Santo Padre limita-se a sublinhar algo que já há muito faz parte da nossa doutrina."

O entusiasmo mediático com Francisco é assim recebido, por estas pessoas, com uma cerebral e analítica contextualização, contrastante com a verve emocional com que os mesmos protagonistas popularizaram e glorificaram as intervenções de João Paulo II.

Essa minha desconfiança reforçou-se com a notícia elaborada pela Agência Ecclesia sobre o "Evangelii Gaudium", conhecido na semana passada, escrito pelo Papa.