Freeport e BPN

Antes das eleições de Setembro e depois das eleições de Junho, estas duas ou três semanas que vivemos são as únicas em que a Justiça pode ainda produzir um avanço qualquer nas investigações aos casos Freeport e BPN. Qualquer desenvolvimento no processo Freeport será acusado de prejudicar ou ajudar Sócrates. Um avanço no BPN parecerá que serve para atingir Cavaco e, por via disso, Ferreira Leite. Talvez por isso, por este magro intervalo eleitoral, quer um caso quer outro voltam a ser notícia. Lopes da Mota fala pela primeira vez, neste 24horas, da suspeita de pressão sobre a investigação que incomoda o primeiro-ministro. O Conselho Superior da Magistratura decide, contra a vontade do próprio, manter sob segredo o inquérito ao presidente da Eurojust – uma medida muito legalista mas que, como sempre acontece com este tipo de segredos, é uma estúpida sementeira para futuras fugas de informação, boatos e imprecisões. E um antigo ministro de Cavaco Silva – Arlindo Carvalho – surge arguido no caso BPN: ao juntar-se a Dias Loureiro começa, de facto, este escândalo a pesar alguma coisa na história dos governos do actual Presidente da República.
in 24horas, 21 de Julho de 2009

Servir o público

Na entrevista que hoje o 24horas publica com o realizador Carlos Coelho da Silva, um homem que já assinou êxitos de bilheteira como “O Crime do Padre Amaro” ou “Amália”, e que prepara para o cinema uma versão de um dos episódios da série de livros juvenis “Uma Aventura...”, destacámos para título a seguinte frase do cineasta: “Faço os filmes a pensar no público”. O interessante da construção jornalística da referida entrevista é ela pressupor, da parte de quem a editou, que em Portugal ainda é notícia o facto de um cineasta achar que, em primeiro lugar, deve satisfazer algumas exigências mínimas de comunicabilidade com os espectadores e só depois pode servir os seus propósitos e anseios artísticos, estéticos, ideológicos, políticos ou o que quer que seja. O trauma de anos e anos a ver filmes insuportáveis, que acabou num divórcio de décadas entre público e realizadores, e que também acabou por colocarem causa a justeza e necessidade da atribuição de subsídios a uma indústria cultural que parecia apostada num consistente e arrogante autismo profissional, parece, finalmente, desde há alguns anos, estar a ser ultrapassado. Ainda bem.
in 24horas, 18 de Julho de 2009

Justiceiros da paternidade

A primeira vez que escrevi sobre o caso Esmeralda apontei a pressão manipulatória que muitos jornalistas e pessoas influentes – certamente bem-intencionados e genuinamente interessados no bem da criança – estavam a fazer no sentido de alterar a decisão de entrega definitiva da criança ao seu pai biológico, Baltazar. É verdade que o sargento Luís Gomes merece todos os elogios como marido e como pai, mas também é verdade que quem conhecesse minimamente o processo não podia aceitar que Baltazar fosse penalizado com a perda da filha. E num caso em que nenhuma solução seria boa, adiar ainda mais a decisão definitiva (já insuportavelmente demorada pelos tribunais) seria, em relação à criança, o pior que se poderia fazer. Pois foi isso mesmo que se fez, por culpa desta gente... Passaram-se, entretanto, três anos, com Esmeralda sem saber o que lhe iria acontecer. Tudo se encaminha, afinal, para a primeira forma: a entrega definitiva da menina a Baltazar, com quem está há seis meses, aparentemente bem. Entretanto, pelo que se passou recentemente com outros casos, parece-me que estes justiceiros da paternidade nada aprenderam com Esmeralda.
In 24horas, 13 de Julho de 2009

A vida dos meninos ricos

A particularidade mais relevante da vida de um adolescente rico não faz parte dos pequenos luxos que se somam no dia-a-dia de filho de milionário: não é a mota aos 16 anos, não são as viagens a Londres ou Paris em low-cost (a mesada, apesar de tudo, não dá para mais...), nem são as festas nos montes alentejanos da família. A particularidade mais relevante da história que contamos no 24horas de hoje é a de constatarmos este facto: Está generalizada a prática de que todos estes meninos e meninas, depois de terminarem a escola secundária, devem ir tirar o seu curso universitário no estrangeiro, de preferência nos Estados Unidos da América. É aqui que a chamada “classe alta” marca as distâncias, mantém a sua posição de elite e garante a própria sobrevivência da espécie. Há 50 anos a classe média tirava o 5.º ano dos liceus, a burguesia mais endinheirada o 7.º ano e as universidades eram exclusivas das elites. Agora, a classe média tira uma licenciatura, a burguesia mais endinheirada avança para um mestrado e as “boas famílias” subsidiam um diploma estrangeiro para os seus jovens. O dinheiro, como já se sabe, mantém sempre as distâncias.
In 24horas, 12 de Julho de 2009

Manuel Pinho

O gesto que Manuel Pinho fez no Parlamento é tão inacreditável que até parece ter-se assistido ali a um deliberado e consciente acto de suicídio político. E, convenhamos, os motivos para isso são mais que muitos. Umas horas antes ainda era notícia o facto de Manuel Pinho ter andado a dizer que procurava soluções para salvar alguma coisita da Qimonda, a fábrica high-tech falida que é, até agora, o símbolo maior da crise económica em Portugal. Todos os dias, Pinho colocava-se nessa situação: Aparecia a prometer soluções que não tinha nem, provavelmente podia ter; jurava andar a tentar impedir falências que, quase de certeza, não podia evitar; viajava para negociar com empresários apoios que não tinha para dar; mostrava aos jornalistas um país fora da crise que ninguém conseguia ver. Pinho estava há mais de um ano a tourear a situação económica e política. Mas a faena era um desastre colossal. Devia ser isso que tinha ele na cabeça quando ontem, frente aos deputados, resolveu tomar o lugar do touro, colocar uns chifres na cabeça, e investir. Ofereceu-se à morte e, claro, deram-lhe a estocada fatal. Pedida e merecida.
In 24horas, 3 de Julho de 2009

Ronaldo e Ferreira Leite

Lendo o relato da história de capa de hoje do 24horas, que dá conta que Cristiano Ronaldo perdeu a cabeça e deu um pontapé no vidro de um carro onde estava um casal que o perseguia há horas, para filmar, é instintivo para qualquer leitor tentar o julgamento moral. Vou fazer esse exercício: Cristiano devia ter dado o pontapé no carro do paparazzo? Acho que não. E se eu estivesse no lugar de Cristiano Ronaldo, era capaz de fazer o mesmo? Pois, por muito que isto escandalize o meus colegas de profissão, tenho de reconhecer que sim. Se fosse juiz deste caso, estava tramado...




Falando de outra coisa: Aquilo que Henrique Granadeiro disse ontem ao jornal “I” sobre os tempos em que foi administrador do grupo controlado pela PT, na altura dono do 24horas, é pura verdade. Nesse tempo, era o governo do PSD, ele foi demitido por não ceder à pressão política que queria “cortar cabeças” a jornalistas como eu. Vivi esse facto. Manuela Ferreira Leite não liderava, nessa altura, o PSD mas fez parte desses governos até 2004. Acho relevante o que, sobre isso, ela diz. Leia-se, por isso, a pequena e fundamental notícia da página 7 .
1n 24horas, 1 de Julho de 2009